Esta história remonta ao ano de 1923, na cidade de Oslo, Noruega. Retrata a jornada de uma mãe cuja coragem e determinação a levaram até às últimas instâncias, em busca de um diagnóstico que teimava em não chegar. Mãe de duas crianças com défice intelectual grave, Borgny utilizou todos os recursos que tinha para perceber que doença afetava os seus filhos, para chegar a um diagnóstico. E foi assim que se identificou, pela primeira vez, a fenilcetonúria, uma das doenças genéticas mais bem caracterizadas dos tempos de hoje. É a história de uma mãe coragem, que não aceitou um não como resposta. Em 1984, e já com 80 anos, Borgny Egeland viu a sua valentia e perseverança serem homenageadas pelo governo norueguês.

 

O jovem casal Harry e Borgny Egeland começou por perceber que a sua filha Liv tinha um certo atraso no desenvolvimento, em relação às outras crianças. Com três anos, Liv ainda não falava, nem andava. Num primeiro momento, não prestaram grande preocupação, já que o pai também havia tido um desenvolvimento tardio. Foi com a chegada do segundo filho, Dag, que o desassossego voltou a abalar a família. Com o passar do tempo perceberam que Dag também tinha um certo atraso do desenvolvimento. “Estava sempre apático, alheado do mundo”, afirmava a mãe, Borgny Egeland, a todos os médicos que recorria. O jovem casal também denotou um odor intenso da urina dos filhos. Procuraram vários médicos, de várias especialidades, mas as respostas, essas, foram sempre as mesmas - “Não sabemos”, “Não há nenhuma relação conhecida”.

O desespero de Borgny Egeland levou-a, por fim, a recorrer a Asbjorn Folling, um conceituado bioquímico da Universidade de Oslo, amigo próximo da família. Folling trabalhava com doenças metabólicas e habitualmente não analisava pacientes. Contudo, e devido ao desespero e suplício de Borgny, Folling não conseguiu ficar indiferente. Afinal, a ausência de resposta pode ser mais dolorosa do que a própria resposta. Folling abriu uma exceção e decidiu analisar aquele caso enigmático.

No dia seguinte, Borgny levou até ao laboratório do investigador uma amostra da urina dos seus filhos, para que este a pudesse analisar. Os exames de rotina, feitos por Folling, apresentaram resultado negativo. Foi então que o bioquímico decidiu fazer alguns testes extra.

Num deles, adicionou algumas gotas de cloreto férrico, para perceber se estava na presença de alguma cetona. Porém, em vez da cor vermelho-acastanhada, que era esperada, surgiu um tom verde-escuro, que desapareceu em poucos minutos. Este resultado intrigou o investigador, que decidiu aprofundar a investigação até conseguir isolar a substância. Assim, Folling pediu a Borgny que, durante os próximos meses, lhe levasse, todos os dias, uma amostra de urina dos seus filhos.

“Foram precisos mais de 20 litros de urina, até que conseguíssemos identificar a causa do odor”, afirmou o investigador.

Após várias semanas de trabalho, o bioquímico conseguiu isolar o ácido fenilpirúvico. O primeiro passo estava dado, mas faltava o resto. A dúvida ainda se mantinha – Será que a presença desta substância estava relacionada com o défice intelectual das crianças?

Após testar mais crianças com o mesmo fenótipo, Folling percebeu que estava perante uma doença hereditária, possivelmente com transmissão autossómica recessiva. A semelhança estrutural entre o ácido fenilpirúvido e a fenilalalina, levou-o a postular que talvez esta condição se devesse à incapacidade de metabolizar a fenilalanina.

A hipótese foi, mais tarde, confirmada – estas crianças tinham dificuldade em metabolizar fenilalanina. Como consequência, esta acumula-se no sangue e é transformada em ácido fenilpirúvico, que por sua vez é excretado pela urina. Folling chamou a esta doença “Oligofrenia fenilpirúvica”, designação que mais tarde veio a ser alterada para “Fenilcetonúria”, pelo geneticitsa Lionel Penrose.

Infelizmente, a família Egeland não conseguiu usufruir destas descobertas. O filho mais novo, Dag, acabou por morrer de pneumonia, enquanto a filha Liv foi internada numa instituição para pacientes com dificuldades de desenvolvimento.

Em 1984, e já com 80 anos, Borgny Egeland foi homenageada pelo governo norueguês:

“Se a senhora Egeland não tivesse, há 50 anos atrás, recusado aceitar os “não sei” como resposta, nunca o Dr. Folling poderia ter feito a sua descoberta. Como resultado da sua persistência, hoje milhares de crianças beneficiam do tratamento desta doença”.

No final de contas, Borgny é apenas uma mãe que, como todas, deseja o melhor para os seus filhos. Foi apenas a primeira, das muitas que se lhe seguiram e que partilham consigo a dor da ausência de resposta. A angústia de ver os seus filhos com uma condição sem nome, de ouvir insistentemente “não sabemos”, “não conseguimos diagnosticar”. Demasiados anos de dúvidas, demasiado tempo de luta. Afinal, a ausência de diagnóstico pode ser bem mais dolorosa do que o diagnóstico em si.

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Glossário

Doença hereditária

São um conjunto de doenças, com origem genética, que se transmitem de geração em geração (de pais para filhos), e ao longo da descendência. Estas doenças não se manifestam necessariamente à nascença ou durante a infância. Podem manifestar-se em qualquer momento ao longo da vida.

Doença genética

São um conjunto de doenças causadas por uma alteração, ou mutação genética, numa das bases do DNA. Esta alteração faz com que uma ou mais funções das nossas células esteja disfuncional. Como tal, as células não conseguirão desempenhar as suas funções corretamente, originando um padrão de doença.

Metabolismo

É o conjunto de transformações e reações químicas que acontecem no interior das células. Estas reações são responsáveis por sintetizar e degradar nutrientes, com o objetivo de permitir o crescimento e a produção de energia.

Doença metabólica

São um conjunto de doenças que se caracterizam por um anormal metabolismo celular. Isto significa que o conjunto de transformações e reações químicas que acontecem nas nossas células está, de alguma forma, alterado. Como consequência, as funções celulares não são desempenhadas normalmente, originando uma doença.

Doença autossómica recessiva

São um conjunto de doenças que partilham o mesmo método de transmissão. São doenças que, para se manifestarem, necessitam de ter dois alelos alterados. Ou seja, para que uma determinada doença se manifeste num indivíduo, ambos os progenitores têm de ter pelo menos um dos alelos da doença. Como é uma doença autossómica, isto significa que não afeta os cromossomas X e Y e, portanto, pode atingir homens e mulheres na mesma proporção.

Fenilcetonúria

É uma doença genética causada por uma alteração no gene PKU. Como consequência desta mutação, a enzima responsável por transformar a fenilalanina em tirosina está disfuncional. Assim, pacientes com fenilcetonúria não conseguem degradar a fenilalanina e registam elevados níveis desta molécula no organismo.

Fenilalanina

É um aminoácido essencial para o ser humano. O nosso organismo não é capaz de produzir fenilalanina e, por isso, só poderemos obter este aminoácido a partir da alimentação. Indivíduos com fenilcetonúria não devem ingerir alimentos ricos em fenilalanina, uma vez que não a conseguem degradar.

Ácido Fenilpirúvico

A fenilalanina acumulada no corpo acaba por ser transformada em ácido fenilpirúvico. Uma substância tóxica que afeta várias zonas do nosso corpo, em especial o cérebro. Foi o ácido fenilpirúvico que Folling encontrou na urina das crianças.